Todos os anos, o Agosto Dourado convida a sociedade a falar sobre aleitamento materno, seus benefícios e a importância de oferecer às mulheres condições para amamentar.
No Brasil, agosto é oficialmente o mês do aleitamento materno desde a Lei nº 13.435/2017. A campanha também está relacionada à Semana Mundial da Amamentação, realizada de 1º a 7 de agosto.
Quando falamos sobre amamentação, geralmente pensamos no bebê: nutrição, imunidade, crescimento e desenvolvimento.
E tudo isso é, de fato, muito importante.
Mas existe uma outra pessoa nessa história que também precisa ser olhada:
a mãe.
Como ela está se sentindo?
Está conseguindo descansar?
Está recebendo apoio?
Está com dor?
Está se sentindo pressionada?
Está conseguindo amamentar da maneira que imaginou?
Essas perguntas também fazem parte da saúde materna.
Amamentar é importante. Mas a experiência de amamentar também importa.
A Organização Mundial da Saúde e o Ministério da Saúde recomendam o aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis meses de vida e sua continuidade até os dois anos ou mais, juntamente com a introdução de alimentos adequados a partir dos seis meses.
Os benefícios do aleitamento materno são amplamente reconhecidos.
Mas falar sobre esses benefícios não significa ignorar a experiência emocional da mulher.
Porque, na prática, amamentar nem sempre acontece da maneira como foi imaginado durante a gestação.
Algumas mulheres enfrentam dificuldades com a pega, dor, fissuras, ingurgitamento, produção percebida como insuficiente, dificuldades na ordenha ou na rotina de amamentação.
Outras podem se deparar com uma realidade emocional muito diferente daquela que esperavam.
E existe ainda algo muito delicado: a sensação de que precisam conseguir.
A ideia de que uma “boa mãe” necessariamente amamenta sem dificuldades pode transformar uma experiência que deveria ser acompanhada de suporte em uma fonte de culpa, ansiedade e sofrimento.
O que a ciência nos diz sobre amamentação e saúde mental?
Essa relação é mais complexa do que parece.
Uma revisão sistemática publicada no Journal of Women’s Health analisou 55 estudos sobre os efeitos da amamentação na saúde mental materna. Entre os estudos analisados, 36 encontraram associações significativas entre amamentação e desfechos de saúde mental, principalmente relacionados a sintomas de depressão e ansiedade. A maioria encontrou associação com menos sintomas.
Por outro lado, a mesma revisão mostrou algo fundamental: quando existem dificuldades importantes para amamentar ou quando existe uma grande diferença entre aquilo que a mulher esperava viver e aquilo que realmente está vivendo, podem surgir impactos negativos sobre a saúde mental.
Isso nos mostra que não basta perguntar:
“Ela está amamentando?”
Precisamos perguntar também:
“Como ela está vivendo essa amamentação?”
Essa diferença muda completamente a forma de cuidar.
Quando a amamentação vira uma fonte de culpa
Imagine uma mulher que passou a gestação inteira ouvindo que amamentar seria natural.
Ela se preparou.
Comprou sutiãs de amamentação, estudou posições, assistiu a vídeos, ouviu relatos de outras mães e criou expectativas sobre aquele momento.
Então o bebê nasce.
E as coisas não acontecem como ela imaginava.
O bebê não pega facilmente.
Ela sente dor.
Fica cansada.
Tem dúvidas sobre a quantidade de leite.
Começa a comparar sua experiência com a de outras mães.
E, pouco a pouco, uma dificuldade relacionada à amamentação pode começar a ser interpretada como uma falha pessoal:
“Meu corpo não está funcionando.”
“Eu não estou conseguindo ser mãe.”
“Talvez eu não esteja fazendo o suficiente.”
“Todas conseguem, menos eu.”
É nesse ponto que precisamos prestar atenção.
Porque o problema deixa de ser apenas uma dificuldade técnica de amamentação e passa a envolver autoestima, culpa, ansiedade, expectativas e identidade materna.
Depressão pós-parto e amamentação: uma relação que pode ser de mão dupla
A relação entre depressão pós-parto e amamentação também não deve ser simplificada.
Pesquisas mostram associação entre sintomas depressivos no período pós-parto e maior probabilidade de interrupção do aleitamento exclusivo. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada recentemente encontrou que mulheres com sintomas de depressão pós-parto apresentavam maiores chances de realizar amamentação não exclusiva.
Isso não significa que a depressão seja causada pela interrupção da amamentação.
Nem significa que amamentar seja um tratamento para depressão.
A relação pode acontecer nos dois sentidos e ser influenciada por diversos fatores: dificuldades na amamentação, privação de sono, falta de apoio, condições socioeconômicas, expectativas maternas, experiências anteriores, saúde física e emocional, entre outros.
Por isso, a mãe precisa ser cuidada como um todo.
Acolher não significa deixar de incentivar a amamentação
Esse talvez seja um dos pontos mais importantes dessa conversa.
Falar sobre saúde mental materna não significa ser contra a amamentação.
Muito pelo contrário.
Significa defender uma assistência que incentive, informe e ofereça suporte, mas que também reconheça a mulher por trás da amamentação.
O Ministério da Saúde destaca a importância do aleitamento materno e recomenda sua continuidade até dois anos ou mais. Ao mesmo tempo, promover o aleitamento precisa caminhar junto com a oferta de informação, apoio e cuidado às mães.
A mulher não deveria precisar escolher entre:
“ser uma boa mãe”
e
“cuidar da própria saúde mental”.
Ela merece apoio para os dois.
E onde entra a Psicologia?
A Psicologia Perinatal pode contribuir justamente nesse espaço.
Não para dizer à mulher o que ela deve fazer.
Mas para ajudá-la a compreender o que está sentindo, elaborar expectativas, identificar pensamentos que aumentam o sofrimento e construir estratégias para lidar com uma fase de tantas mudanças.
Às vezes, a mãe precisa de informação.
Às vezes, precisa de ajuda prática com a amamentação.
Às vezes, precisa de descanso.
Às vezes, precisa de uma rede de apoio mais presente.
E, em alguns casos, precisa de acompanhamento psicológico.
O cuidado também está em perceber quando o sofrimento deixou de ser apenas um momento difícil e passou a interferir significativamente na vida da mulher.
Amamentar não deveria significar sofrer em silêncio
O Agosto Dourado é uma oportunidade para ampliarmos essa conversa.
Precisamos continuar falando sobre os benefícios do leite materno.
Mas também precisamos falar sobre a mulher que amamenta.
Sobre suas emoções.
Sobre suas expectativas.
Sobre seus medos.
Sobre sua exaustão.
Sobre a culpa.
Sobre a necessidade de apoio.
E sobre o direito de pedir ajuda.
Porque apoiar a amamentação também significa apoiar a mãe.
E talvez essa seja uma das mensagens mais importantes deste Agosto Dourado:
Uma mãe não precisa ser apenas incentivada a amamentar. Ela precisa ser cuidada enquanto amamenta.
A amamentação pode ser uma experiência de vínculo, nutrição e afeto.
Mas, para que ela seja vivida com mais leveza, a saúde emocional materna também precisa estar no centro da conversa.
Por Daniella Faria | Psicóloga CRP 10/03812 – Especialista em Psicologia Perinatal
Cuidar da maternidade também significa cuidar da mulher que existe dentro dela.


